A Internet diminuiu distâncias e horizontalizou o planeta. Tecnologias criadas em lugares como o Vale do Silício, nos Estados Unidos, ou pequenos escritórios de desenvolvimento na Europa, ganham o mundo, são localizadas e adaptadas e acabam incorporadas no dia a dia de milhões de pessoas.

Por isso, embora cada comunidade se aproprie de ferramentas globais de modo a adaptá-las às suas necessidades e, em alguns casos, faça uso das desenvolvidas localmente, boa parte do tempo gasto na Internet, aqui ou em qualquer outro lugar, passa pelos mesmos sites e apps, pelos mesmos comportamentos e ações. Existe um país, porém, e um bem grande, que escapa dessa lógica: a China.

A China é o equivalente digital de Galápagos ou de uma fossa marinha, ou seja, locais isolados que geraram bichos únicos no mundo — no caso, apps únicos.

O Partido Comunista da China, há mais de meio século no poder, mantém uma parede virtual que praticamente transforma a Internet chinesa em uma intranet: a poucos serviços conhecidos podem entrar no país, por questões de controle governamental. Para complicar mais, os entraves burocráticos e anti-privacidade são enormes.

China vs. O resto do mundo

Gigantes multinacionais como Google e Facebook não existem na China, que já passa 1 bilhão de habitantes (o mundo tem sete bilhões). Quem consegue dar um jeitinho de ultrapassar esses obstáculos se depara com a concorrência, por vezes desleal, dos campeões nacionais: esses entendem muito bem o público, jogam de acordo com (e com incentivos do) governo e se encrostam na vida cotidiana dos chineses de tal forma que as alternativas usadas pelo resto do mundo não chegam a fazer falta. A última “vítima” foi o Uber, que vendeu a sua operação chinesa à Didi Chuxing, com quem concorreu ferozmente durante alguns anos, sangrando até US$ 1 bilhão por ano. E mesmo assim não deu.

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Essa Internet fechada, proporcionada por uma política declaradamente protecionista, força um tipo de inovação bastante peculiar na China. Para todos os serviços que usamos no ocidente, coisas como Facebook, Twitter, Amazon, YouTube, Google Maps e WhatsApp, existe um equivalente chinês. Em alguns casos a cópia é muito similar, mas a maioria acaba apenas se inspirando numa premissa e desenvolvendo todo um novo conceito em cima dessa base.

Um app com todos os recursos possíveis

O maior expoente do método chinês de criar grandes apps é o WeChat. É um app de mensagens, como o WhatsApp, mas (muito) mais que isso. Pelo WeChat, propriedade da gigante Tencent, os chineses acompanham os amigos (como fazemos no Twitter), leem notícias e publicações de celebridades (Twitter, Instagram, Facebook), compram coisas (PayPal), pedem coisas (iFood, Uber, Postmates), agendam consultas (sem equivalente massificado por aqui).

Funcionalidades do WeChat

O WeChat se desdobra em tanta coisa que, como mostrou esta reportagem do The New York Times, em boa parte do tempo ele é suficiente para um chinês comum, que consegue se virar com apenas um app — e, ao mesmo tempo, gerar uma quantidade assustadora de dados que são analisados pelo WeChat e, diz a reportagem, compartilhados com o governo.

Confluir diversas funções em um grande app é uma constante por lá. O Baidu Maps, a princípio um app de mapas como o Google Maps ou o Here WeGo, também serve para encontrar amigos (tipo o “Find My Friends”, da Apple), traz guias de viagens, um sistema de carteira digital para pagar por itens digitais e físicos, leitor de QR code e ofertas temporárias (como as do Groupon). O rival no segmento, Tencent Maps, oferece um leque de funções similar.

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Talvez seja um tanto caótico imaginar que uns dez apps que você tem no seu celular podem coexistir em apenas um, mas os chineses lidam bem com isso. E, para as empresas que fazem esses apps, a vantagem é que se torna relativamente mais fácil direcionar a enorme base de usuários a novos produtos.

Dan Grover, um desenvolvedor norte-americano que trocou o Vale do Silício por Guangzhou, na China, para trabalhar como gerente de produto do WeChat, conta como a Tencent e a Alibaba começaram a investir, no começo de 2016, em oportunidades em fundos de investimentos a partir dos seus respectivos apps, WeChat e Alipay.

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O Alipay, aliás, que surgiu como um clone do PayPal, ou seja, uma carteira digital, quando passou a ser confrontado pelo WeChat nesse segmento, implementou um mecanismo de bate-papo e outras funções rigorosamente iguais às do rival. Imagine alguém baixando o PayPal para conversar com os amigos. É difícil, mas lá essa mentalidade de “um app para tudo” torna viável esses cenários que a nós parecem bem malucos.

Imagine alguém baixando o PayPal para conversar com os amigos. É difícil, mas lá essa mentalidade de “um app para tudo” torna viável esses cenários que a nós parecem bem malucos.

O dilema dos desenvolvedores chineses

Alibaba, Baidu e Tencent têm milhões de usuários, principalmente na China, e atuando apenas no mercado local conseguiram se tornar gigantes da Internet — o seu IPO, a oferta pública inicial de ações numa bolsa, foi o maior de uma empresa de tecnologia na história com valorização de 40%.

Mesmo para um país com 1,3 bilhão de pessoas, há limites. Estima-se que a China tenha cerca de 700 milhões de pessoas conectadas; faltam algumas ficarem online, mas a saturação do mercado chinês está próxima.

A expansão, pois, precisa do resto do mundo e é nesse momento que as diferenças culturais, potencializadas pelas restrições a empresas estrangeiras em solo chinês, se tornam um entrave. Se é difícil para empresas ocidentais penetrarem na China, o mesmo vale para o caminho contrário, ou seja, para empresas chinesas ganharem o mundo.

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Tudo é diferente, do marketing às expectativas dos usuários, passando pela relação com o governo e os estabelecimentos que, em grande parte, abastecem os apps chineses com serviços e conteúdo. Em 2012, o WeChat tentou uma expansão internacional. Investiu muito dinheiro nisso e contratou o jogador de futebol Lionel Messi como garoto propaganda, mas o esforço foi em vão.

O NYT aponta que a desconfiança sobre o histórico de censura e vigilância na China, o marketing lugar-comum e as funcionalidades reduzidas do WeChat no resto do mundo, onde é mais um concorrente do WhatsApp do que o app faz-tudo na China, contribuíram para a decepção da investida global.

O dilema das empresas chinesas de tecnologia é ter que escolher onde focar: no mercado chinês ou no mercado internacional. Escolher os dois, até agora, tem se mostrado uma estratégia inviável.

Made in China, mas com jeitinho ocidental, ou vice-versa

A Cheetah tem sede na China, mas mira o mercado internacional. Seu app Musically, que permite filmar dublagens de músicas populares e frases e depois compartilhar os vídeos em redes sociais, é um grande sucesso nos Estados Unidos, com 100 milhões de usuários (no mundo todo) e parcerias com artistas como Ariana Grande e Meghan Trainor. Em absolutamente nada o app se parece com algo vindo da China. Isso é intencional.

A Cheetah Mobile também detém o Clean Master, um app de otimização de smartphones Android muito popular no Brasil. Recentemente, ela adquiriu o app de notícias francês News Republic, com forte presença na Europa e nos Estados Unidos, e que há pouco começou uma pequena operação no Brasil também.

Enquanto essa divisão persiste, práticas consolidadas no ocidente e na China começam a ser trocadas entre empresas. O Facebook, por exemplo, bebe bastante da fonte do WeChat com sua iniciativa de robôs no Messenger. A ideia de congregar em um app de troca de mensagens recursos dos mais diversos é muito similar à do WeChat. A invasão das figurinhas em apps do tipo é outra cria oriental — embora, nesse caso, o maior expoente do formato seja o app japonês Line.

“(…) vivemos uma Internet globalizada, mas em internets desterritorializadas.”
– Frédéric Martel

Entre 1,5 e dois bilhões de adultos no mundo ainda não estão conectados à Internet nem têm smartphones. Em alguns lugares, como na África, a porcentagem de pessoas nessa condição é maior que a média mundial. Isso quer dizer que há grandes espaços para levar abordagens mobile e não há garantias de que a ocidental, encabeçada por Facebook e Google, será a escolhida por esses povo. Frédéric Martel diz, no livro Smart, que não vivemos uma Internet globalizada, mas em internets desterritorializadas. Com isso, ele quer dizer que a Internet muda dependendo de onde se esteja. Parece um pensamento válido, também, para os negócios.

Mas a sede por alcance é maior e há meios de burlar essas peculiaridades regionais. As empresas chinesas têm feito investimentos sucessivos em startups deste lado do globo para participar dos lucros, compartilhar expertise e, claro, fazê-las de atalhos para expandir as suas próprias soluções. O isolamento da China ainda existe, mas a parede que a separa do resto do mundo está cada vez menos rígida.

  • Caio Marques

    Meus parabéns pela construção deste conteúdo. Bastante esclarecer para quem tem visão de que todos os mercados são iguais.

  • Jefferson Schiavetto

    Muito bom o artigo!

  • Show!!!

  • Muito bom

  • Bruno De Souza Pimentel

    Gostei muito desse artigo. Parabéns!

  • Leandro

    Excelente texto, outra coisa perceptível é que em alguns mercados (como aqui por exemplo) a única chance de uma empresa chinesa conseguir se dar bem é não deixando que saibam que é chinesa.

  • Davi

    Artigo excelente, muito bem explicado e demonstrado!