Em 1986, o McDonald’s abriu um restaurante na famosa Piazza di Spagna, na Itália. Sua chegada a um dos lugares de culinária mais tradicional do mundo foi vista por Carlo Petrini, um chef que trabalhava ali, como o ápice do fast food. Era preciso uma resposta, algo tão esperto quanto a ideia do fast food.

Petrini saiu-se muito bem nessa missão. Ele criou o movimento Slow Food. Em vez de comida processada, com ingredientes commoditizados, produzida em escala industrial e servida sem qualquer interesse ou cuidado, o Slow Food preconizava a seleção dos ingredientes, o prazer em se alimentar, a tranquilidade de comer sem pressa, de degustar o que se ingere.

clock slow food

O fast food cumpre uma função — às vezes o tempo de preparo, maior apelo desses locais, é imprescindível. E há quem goste, afinal. Mas ele não poderia ser a única ou mesmo a melhor opção para comermos.

O Slow Food surgiu para antagonizar o fast food, mas não para barrar a sua franca expansão — isso seria utópico. Nesse sentido, ele funciona como um lembrete, psicológico e gustativo, de que há coisa melhor por aí servida de maneiras mais dignas. Uma resistência gastronômica.

Quase 30 anos mais tarde, outra área notadamente marcada pela agilidade, a Internet, precisou de alguém que redigisse um manifesto em prol de um outro ritmo, um que fizesse contraponto à velocidade irracional vivida no online. Por muito tempo e para muita gente, a Internet foi e ainda é sinônimo de uma velocidade insana, um consumo desenfreado de informações e de submissão irrestrita a eventos aparentemente aleatórios (porém não tanto).

A web talvez tenha nascido e sido projetada com essa aceleração em mente, mas não precisa ser assim. Entra em cena o Movimento Slow Web.

Peace Of Mind Calmness Harmony Concept

As quatro bases do Slow Web

Não existe um ponto que marque o surgimento do Slow Web, mas diversas propostas e iniciativas que convergiram para esse pensamento. Uma das mais destacadas é o ensaio de Jack Cheng, “The Slow Web”, publicado em meados de 2012. Usando-se de alguns exemplos, Cheng lista quatro pontos definidores para uma abordagem Slow Web:

  • Oportunidade;
  • Ritmo;
  • Moderação; e
  • Conhecimento.

Oportunidade, neste contexto, refere-se a uma espécie de oposição ao tempo real. Em troca do imediatismo e das recompensas eventuais aleatórias, ambas geradoras de ansiedade na forma do “FOMO” (“fear of missing out”, ou “medo de ficar de fora”), o Slow Web sugere interações esporádicas a seu tempo.

Em vez de bombardeá-lo com uma linha do tempo que se atualiza ao ser puxada para baixo e jamais tem fim ao ser rolada para cima, uma aplicação calcada no Slow Web só se apresenta quando alguma ação é necessária e apenas retorna o que é importante e no momento mais próximo do ideal — ou, para dar sentido à tradução livre, no momento mais oportuno.

Alarm clock on laptop concept for business deadline

Ritmo anda de mãos dadas com a oportunidade. Esse aspecto dialoga com a imprevisibilidade da web e as múltiplas ofertas que recebemos ao longo do dia para se conectar, interagir ou arriscar. Um serviço que abdique do tempo real, mas que exagere na dose de interações pretensamente “oportunas” a fim de estimular o usuário não é, assim, adepto da filosofia Slow Web.

É preciso harmonizar as interrupções a que o usuário é submetido.

Os dois aspectos se congregam no terceiro: moderação. Aqui, é fazer da escassez uma virtude porque, em boa parte dos casos, ir além não traz tantos benefícios assim a quem usa ou consome o produto/serviço. O e-mail poderia ser um grande exemplo de aplicação Slow Web: ele é assíncrono, ou seja, não funciona em tempo real, e pode ser respondido, em regra, no ritmo que o próprio usuário define como ideal.

Falta-lhe, porém, a moderação. Ele não foi projetado para isso, de modo que alguém pode gastar tanto alguns minutos respondendo ou fazendo uma triagem das últimas mensagens recebidas ou horas tirando o acúmulo de mensagens pendentes.

Por fim, conhecimento. Nunca se produziu tanta informação na história humana. Desse excesso vem o questionamento sobre até que ponto importa saber tanto e, mais do que isso, o que, afinal, estamos aprendendo. Seria, voltando à analogia com o Slow Food, o fator nutricional da informação. Nas palavras de Cheng:

A web rápida é sobre informação. O Slow Web é sobre conhecimento. A informação passa por você; conhecimento se dissolve em você. E oportunidade, ritmo e moderação são todos essenciais à memória e à aprendizagem.

Slow Web - Wall full of clocks

O conflito e a vantagem comercial

O maior empecilho do Slow Web nas empresas é a sua incompatibilidade com os modelos de negócio mais tradicionais e comprovadamente funcionais. Esses, ao contrário, costumam se basear no exato oposto, em técnicas há muito conhecidas e usadas por cassinos e jogos de azar. Todas as características condenadas pelo Slow Web são, em regra, apreciadas e tidas como necessárias para fazer um negócio baseado na Internet, seja um site ou um app, funcionar.

Da mesma forma que o Slow Food não vislumbra tomar o lugar das redes de fast food, o Slow Web tampouco pretende se tornar a norma na Internet.

O Slow Web é como uma espécie de chamado, de lembrete de que, embora muito mais difícil, é possível fazer diferente. Ou, de maneira mais prática, um limitador do que podemos fazer na outra ponta, na conquista e fidelização dos usuários. Talvez tornar o seu app viciante seja bom para os negócios, mas será que isso é bom na mesma medida para quem o usa?

O mercado online é disputado e essa pressão pode nos levar à insanidade. Ter contato com filosofias como o Slow Web ajuda na busca por equilíbrio. Afinal, por trás de todo serviço, seja virtual ou não, existe uma responsabilidade social implícita. Se todos os restaurantes do planeta passassem a servir comida altamente processada do dia para a noite, viveríamos em um mundo menos saboroso, menos nutritivo, mais uniforme. Pior. O mesmo vale para a web e a Internet.

Entre outras coisas, a One Day Testing avalia as funcionalidades do seu app e a experiência do usuário em situações inesperadas, como conexão lenta e em dispositivos menos comuns. São aspectos importantes para diminuir as impressões negativas que erros e implementações equivocadas podem gerar. Entre em contato com a gente e peça um orçamento.