Onde o Viés do Sobrevivente e a visão do QA se interligam?

Você conhece o viés do sobrevivente?

Este viés é a inclinação natural que nós temos ao considerar um acontecimento tendo como base apenas a experiência dos que sobreviveram e que se tornaram bem-sucedidos.

O sobrevivente geralmente está vinculado a uma guerra ou a uma grande experiência traumática. No caso desse viés, o sobrevivente é todo aquele que supera o fracasso.

Existem dois vieses que estão diretamente ligados ao viés do sobrevivente e que ajudam a explicar o seu funcionamento.

O primeiro é o Viés Atencional. Relaciona-se à tendência que todos os seres humanos possuem de escolher no que prestar atenção de acordo com os seus aspectos emocionais.

Já o Viés de Autoridade, considerando uma falha de lógica, diz respeito a darmos valor às opiniões, análises e conselhos de especialistas – ainda que contrariem as nossas próprias opiniões, análises e conclusões.

Mas como o Viés do Sobrevivente (e os outros viéses correlacionados) funciona na prática? Vamos ilustrar com um exemplo.

O Viés do Sobrevivente na prática

O matemático e estatístico Abraham Wald conhecia muito bem o Viés de Sobrevivência. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, engenheiros norte-americanos analisaram os aviões que voltavam de combates. Eles consideravam que as áreas com mais furos de balas dos aviões como aquelas possivelmente mais frágeis. Veja a imagem abaixo:

Viés do Sobrevivente

Com base nesse pressuposto, instalavam-se blindagens extras nas áreas com pontinhos vermelhos.

No entanto, a estratégia se mostrou um fracasso, já que os aviões que voltavam eram justamente aqueles que sobreviveram aos ataques. E as partes onde as balas atingiam, na verdade, já eram as mais resistentes da aeronave.

Logo, os aviões abatidos não regressavam para serem analisados porque provavelmente eram atingidos naquelas áreas onde os aviões estavam sendo reforçados.

Analisando essas informações minuciosamente, Wald chegou à conclusão de que não deveriam adicionar blindagem extra nas áreas com mais furos, mas sim nas demais. O resultado se mostrou eficaz, revelando o erro lógico da natureza do Viés de Sobrevivência.

Mas enfim… O que isso tem a ver com testes de software?

O viés aplicado aos testes de software

Sabemos que uma das principais qualidades de quem trabalha com testes de software é a atenção aos detalhes. Sendo assim, é fundamental que nós, QAs, sejamos ainda mais minuciosos. Principalmente, distinguindo cenários com pensamentos críticos e analíticos para não nos enganarmos pelos nossos vieses que, muitas vezes, são bem inconscientes. 

É importante não só avaliar o que dá certo ou o que dá errado, mas buscar entender a origem de cada situação. Sobretudo, quando as falhas acontecem.

Aprendemos muito nos erros, mas o nosso viés muitas vezes nos faz prestar mais atenção ao que deu certo e no caminho bem-sucedido do ao que levou ao insucesso.

No entanto, se nos pautamos em dar mais atenção ao nosso Viés do Sobrevivente – sempre procurando uma receita mágica para também ter sucesso – perdemos a chance de aprender com os erros de quem não chegou lá. 

Lembre-se sempre de se perguntar: por que um teste deu errado se ele foi executado usando a mesma estratégia do que deu certo? 

Para evitar ficar em uma zona confortável, precisamos fugir de alguns costumes e vieses.

Para mitigar a nossa intuição de fazer só o que já conhecemos (o que por muitas vezes não nos faz perceber que estamos repetindo padrões), precisamos entender os detalhes de cada ciclo e buscar evoluir utilizando uma metodologia de melhoria contínua.

É uma boa prática analisar a causa raiz tanto do sucesso quanto do fracasso. Assim, obtém-se uma visão mais ampla e detalhista do que pode ser evoluído, melhorado ou deixar de ser utilizado por se tornar obsoleto ou não fazer mais sentido para a estratégia de negócios.

A melhor forma de evitar cair em algum dos nossos vieses é buscar praticar sempre o que podemos dizer que é uma das maiores aptidões de um QA: a habilidade de fazer perguntas, ser QA como Question Asker (Questionador).

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